AS MARCAS DA ESQUIZOFRENIA
Conviver com um doente com esquizofrenia não é tarefa fácil. Envolve perigos e medos psicológicos e até físicos. Alexandra Mota, irmã de um doente com esquizofrenia, revela situações verdadeiramente traumatizantes. "Quem vive com um esquizofrénico fica com marcas profundas para o resto da vida". Marcas que, segundo Alexandra, se escondem por detrás de muitas portas.
Qual o perfil de um
esquizofrénico?
Um médico psiquiatra será, talvez, a pessoa mais
aconselhada para traçar um perfil clínico. No
entanto, da vivência que tenho, poderia dizer que um
esquizofrénico é alguém que perde a capacidade
de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de
comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e
sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais.
Entrámos no mundo da loucura.
Imaginemos uma corrente composta por vários elos
interligados. Esta seria a metáfora para o pensamento
lógico. Num esquizofrénico, os elos da corrente
soltam-se e as ideias surgem sem uma sequência causal,
condicionando o comportamento e os sentimentos.
Aquilo que é realidade hoje poderá deixar de ser
amanhã. Objectos, palavras, números, cores... ganham
significados totalmente inesperados: "Os barcos que atracam no Tejo
estão a espiar-me"; "o gravador tinha escutas"; "a comida
tem veneno"...
Mudanças súbitas de humor, desconfiança
extrema, provocação, confusão, isolamento,
incompreensão... a intercalar, alguns momentos de lucidez,
arrependimento, choro, desamparo total... procura desesperada de um
carinho...
Ainda assim, os medicamentos existentes permitem criar uma
ligação artificial entre estes elos da corrente,
razão pela qual um doente que aceda a fazer um tratamento
efectivo e continuado poderá alterar estas
características e voltar a aproximar-se do 'mundo real', tal
como o conhecemos.
Há episódios que tenham
ocorrido consigo (e o seu irmão) que tenham envolvido algum
perigo, violência...?
Sim, comigo e com os restantes membros da família. O
internamento hospitalar que levou ao início do tratamento do
meu irmão foi feito sob escolta policial, depois de uma
agressão a mim e aos meus pais.
Mas não foi esta a primeira situação de
violência: ameaças de violação feitas
directamente a mim; a minha mãe foi queimada com o ferro de
engomar; a minha avó, já com 80 anos, empurrada para
o chão; uma faca apontada ao pai; as portas e
armários partidos a murro, vários equipamentos
eléctricos (aparelhagem, etc.) partidos...
provocações constantes a vizinhos e amigos da
família... ameaças...
Que riscos há em viver com um
doente destes (para os familiares e amigos)?
Quando o doente se encontra descompensado, sem
medicação, existem verdadeiros riscos físicos
(de vida) e psicológicos, essencialmente, para os
familiares, já que a amizade raramente resiste a uma
situação de esquizofrenia grave.
E se os riscos físicos são visivelmente os mais
graves, os psicológicos são tremendos. O medo
permanente, a sensação de impotência de
não conseguir travar a doença de um filho ou de um
irmão, o trauma emocional de chegar a odiar alguém
que se ama... e ninguém, nenhuma instituição,
a que se possa recorrer...
Eu diria mesmo que quem vive com um esquizofrénico fica com
marcas profundas para o resto da vida. A sensação de
medo volta a cada estrondo... mesmo depois de anos. A
preocupação, o nervosismo...
E os riscos existem também para o próprio
esquizofrénico que tende a autoflagelar-se, embora isto
nunca tenha chegado a suceder com o meu irmão.
Que alternativas têm os familiares
que não queiram/possam viver com estes doentes? Onde os
podem colocar? Qual o dispêndio
aproximadamente?
Existem muito poucas alternativas, especialmente se o doente
não quiser ser tratado/internado. Apesar de um
esquizofrénico ser considerado inimputável perante a
lei, no caso de cometer um crime, é considerado
responsável para decidir se quer ser internado. (Eu diria
que o próprio sistema de saúde sofre de uma dose
considerável de esquizofrenia.)
Desde que este seja adulto, mesmo depois de diagnosticada a
esquizofrenia, o doente continua a ser responsável por ele
próprio perante as entidades de saúde. Uma realidade
inacreditável para quem deveria saber melhor do que
ninguém que quase nenhum esquizofrénico reconhece a
sua doença.
A opinião dos médicos, daqueles com quem falei,
é a de que retirar o doente da família é
cortar os últimos laços com a realidade. Compreendo
perfeitamente essa perspectiva e concordo, desde que não
seja generalizada a todos os casos e não seja aplicada em
situações limite.
No dia em que o meu irmão foi hospitalizado no Júlio
de Matos seria talvez a terceira ou quarta vez que ali era levado
pela polícia, depois de agressões à
família. Mesmo assim, o médico deu-lhe alta e
mandou-o regressar a casa.
Segundo o médico, o meu irmão já estava bem e
não voltaria a agredir ou a pôr em risco as vidas dos
familiares. No entanto, quando lhe 'sugerimos' que escrevesse e
assinasse uma declaração onde afirmaria isto mesmo e
onde se responsabilizaria pelo que sucedesse no futuro, o seu
discurso alterou-se radicalmente e só assim ficou internado.
Um internamento de cerca de dois meses.
Há várias instituições que recebem os
doentes que acedem em tratar-se (desconheço preços,
porque na altura a minha família não tinha
possibilidades de pagar). Penso até que existem
instituições não governamentais e sem fins
lucrativos que apoiam alguns destes casos, mais como um apoio de
tempos livres, do que propriamente como um local de tratamento.
Quando é que ao seu irmão
lhe foi diagnosticada a doença? Qual foi a
evolução da doença? Quais são os seus
comportamentos no quotidiano?
A doença manifestou-se aos 21 anos e, inicialmente, pensamos
tratar-se de uma depressão nervosa. Terá sido
diagnosticada talvez dois anos depois. Até então, era
uma pessoa reservada e algo nervosa mas perfeitamente normal, muito
responsável com o seu emprego, com os seus amigos...
Durante cerca de dez anos recusou o tratamento e só depois
do internamento hospitalar acedeu continuar a
medicação e o acompanhamento médico.
Hoje, tem 36 anos, está em casa praticamente todo o dia.
Não trabalha, não tem amigos, não se relaciona
com praticamente ninguém a não a ser com a
família, mas consegue ter conversas coerentes, gestos meigos
e carinhosos, preocupações com os pais e
irmãos, brincadeiras com o sobrinho.
Continua a ir, uma vez por mês, ao hospital Júlio de
Matos, onde toma uma injecção. A restante
medicação é tomada por ele próprio, por
sua iniciativa, e tem sido reduzida gradualmente, tornando-se
praticamente imperceptível (não está drogado
ou adormecido por comprimidos).
Continuamos a tentar que crie e reforce novos laços e volte
a socializar-se...
Porque é que muitos doentes se
recusam a ser medicados e porque é que apresentam uma
força física enorme quando se vêem
contrariados?
A recusa dos medicamentos é própria de quem acha que
não está doente e que todos os que o rodeiam
só querem destruí-lo. Aquilo a que chamamos 'mania da
perseguição' é uma das características
da doença e por isso o doente acha que é o mundo
inteiro quem lhe quer fazer mal, sejam os médicos ou os
familiares.
A força física é algo que não consigo
explicar porque nunca consegui perceber. Talvez a
canalização de toda a energia (e nós
não somos senão energia) num único acto, num
mesmo momento...
Gostaria de acrescentar que, só no local onde vivo, um
bairro como tantos outros, na cidade de Lisboa, conheço
cerca de seis casos de esquizofrenia, a maioria em jovens, mas
não só. Todos eles e as suas famílias viveram
(alguns continuam a viver) situações
dramáticas que duram décadas e décadas.
Há um caso de um doente, que deve ter hoje mais de 40 anos,
que está fechado num quarto há cerca de 20 anos.
Ninguém, nem a própria mãe, se pode aproximar
dele. Não se lava, não se veste... A comida é
colocada à porta...
E estamos a falar de um ser humano que vive num país que se
diz desenvolvido e globalizado, mas que ignora totalmente o que se
passa atrás de cada porta, especialmente quando o problema
se relaciona com a saúde mental.










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